Saiba como recuperar concentração roubada por tecnologias que misturam dever e prazer

RACHEL BOTELHO
DE SÃO PAULO

Retrato do malabarista Eduardo Mantovani, 32, que faz malabares com bolas, na sua casa em Pinheiros.

É difícil se concentrar em uma tarefa quando os e-mails não param de chegar, o celular apita e ainda está havendo uma discussão interessante no Twitter, certo?

Mais ou menos. Em vez de atrapalhar, a exposição frequente a situações em que é preciso se concentrar para resolver uma tarefa poderia até melhorar essa capacidade.

Segundo o neurofisiologista Gilberto Xavier, professor do Instituto de Biociências da USP, isso ocorre porque, ao desempenhar diferentes tipos de ação, o sistema nervoso estabelece novas conexões entre diversas microrregiões nervosas.

A manutenção dessas conexões torna-se útil quando é preciso manter a concentração em outras coisas.

“Além disso, há também uma melhora no fluxo sanguíneo encefálico, o que garante melhor oferta de glicose e oxigênio e, portanto, maior disponibilidade de energia para o funcionamento das células nervosas”, diz.

Mesmo assim, a sensação da maioria é que há uma crise de concentração, causada em grande parte pelas novas tecnologias que mesclaram o trabalho e a diversão.

A percepção de que estamos mais dispersos se deve à crença de que é possível -ou necessário- dar conta de tudo ao mesmo tempo.

TUDO AO MESMO TEMPO

A secretária Patrícia Lopes Felipe, de 32 anos, afirma seguir essa cartilha.

“No trabalho, enquanto falo ao telefone, estou respondendo um e-mail ou vou escaneando ou mandando fax de algum documento. Eu acho que ganho tempo assim, não espero terminar uma coisa para fazer outra.”

As pessoas comuns têm cada vez mais obrigações. Antes, o caixa do banco recebia as contas a pagar; hoje, qualquer um faz isso pela internet. O mesmo ocorre com o planejamento das férias.

O resultado dessa sobrecarga é uma falha no processamento neural.

“É impossível ver tudo e fazer tudo perfeitamente. O cérebro não consegue processar nem tem atenção para ouvir iPod, trabalhar, falar ao telefone ao mesmo tempo. A pessoa acaba cometendo erros grosseiros”, diz o psiquiatra Fábio Barbirato, da Santa Casa do Rio de Janeiro.

Patrícia não chegou a tanto, mas já teve seus deslizes. Certa vez, enviou um relatório por e-mail pedindo reembolso do serviço de um carro como se fosse de outro. “Quando a pessoa recebeu, não entendeu nada. São erros pequenos, mas fazem perder tempo”, reconhece.

ABSURDO

Para o psiquiatra Paulo Mattos, professor da Faculdade de Medicina da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), a publicidade vende a ideia de que é bom estar sempre conectado e fazer várias coisas de uma vez.

O professor faz uma comparação com a Revolução Industrial, no século 18, quando os operários eram submetidos a uma carga horária de trabalho extenuante.

“Estamos chegando perto disso. As pessoas não podem desligar o celular em uma consulta, nem no fim de semana, têm que estar sempre disponíveis”, critica.

Apesar desse diagnóstico, ele é otimista. “Aos poucos, as pessoas começam a se dar conta do absurdo disso.”

O bom é que a capacidade de se concentrar pode ser treinada. E está ligada à motivação. Por isso, é mais fácil ficar horas no Facebook do que preenchendo planilhas.

É possível treinar a capacidade se fixar em tarefas chatas, diz Barbirato. “Mas, se a pessoa não consegue, pode ser sinal de depressão, ansiedade ou deficit de atenção.”

Para diferenciar a dificuldade normal da patológica, é bom avaliar as causas da dispersão, o prejuízo que gera e desde quando ocorre.

Em casos normais, estratégias ajudam a manter o foco. Estabelecer horários para checar o e-mail e as mensagens do celular é uma delas.

Páginas da internet não relacionadas ao projeto da vez, sem falar em redes sociais, devem ser visitadas em intervalos pré-definidos.

Além de inibir esses fatores de desatenção, ter metas para resolver as pendências é um bom recurso.

Mas a capacidade de manter o foco não é ilimitada. Ao primeiro sinal de que o sistema está “fundindo”, bater papo, dar uma olhada nas notícias ou enviar mensagem a um amigo pode ser bom.

FOCO NO TRABALHO

Não pule o café da manhã
A falta de comida ativa os hormônios do estresse, que o deixarão nervoso e distraído

Comece bem o dia
Estamos em alerta máximo nas primeiras duas a três horas depois de acordar, então comece o dia com a tarefa mais importante

Faça uma lista
Organize suas tarefas por prioridade e use períodos diferentes para executá-las -depois do almoço, faça coisas que exigem menos concentração

Evite todos os estímulos externos que puder
Tire o telefone do gancho, desligue o alerta de e-mail, feche os sites em que não está navegando

Evite as multitarefas
Ponha sua atenção em uma atividade por vez (fazer várias coisas de uma vez aumenta a probabilidade de cometer erros)

Faça uma pausa
Passar 20 minutos no campo (ou no parque) ajuda a restaurar a atenção

Mantenha-se hidratado
Beber água ajuda o cérebro a se manter alerta e facilita a concentração

Ouça música
Se fones de ouvido forem permitidos, use-os para bloquear outros sons e promover um tipo de atividade cerebral que ajuda a concentração.

Fonte: Folha

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Um comentário em “Saiba como recuperar concentração roubada por tecnologias que misturam dever e prazer

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  1. Muito boas dicas! Acrescento mais uma: meditação!
    Ao invés do cérebro a mil por hora, é bom puxar o freio de mão de vez enquando e deixá-lo estacionado, só observando o fluxo dos pensamentos.
    Abraços fraternos!

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