Profissionais não especializados viabilizam tratamento eficaz da ansiedade

Washington University adota modelo terapêutico que facilita atendimento a pacientes
por Katherine Harmon

iStockphoto/AlexRaths

Na área da saúde mental, em que um mesmo distúrbio pode se manifestar sob múltiplas nuances, são raros os tratamentos que se aplicam de forma igualmente eficaz a todos os indivíduos.

Um experimento controlado, no entanto, conduzido por uma equipe de pesquisadores do Departamento de Psiquiatria e Ciências Comportamentais da Faculdade de Medicina da Washington University, parece ter encontrado um modelo terapêutico que abrange as diferentes manifestações dos transtornos de ansiedade, que incluem estresse pós-traumático, fobia social e síndrome do pânico.

Os resultados são promissores, declarou o principal autor do estudo, Dr. Peter Roy-Byrne, na coletiva à imprensa realizada em Nova York, no dia anterior à publicação da pesquisa pelo Journal of the American Medical Association (Jama).

Na apresentação do trabalho, Roy-Byrne observou que cerca de três quartos das pessoas com distúrbios mentais dos Estados Unidos são atendidas pelo que ele considera “o sistema de facto de saúde mental” do país, o primary care (equivalente no Brasil a Atenção Primária à Saúde, ou APS). No entanto, ressalvou, esse modelo apresenta uma dificuldade: conseguir que os pacientes procurem a ajuda de especialistas em saúde mental, como psiquiatras e psicólogos, “o que é muito mais difícil do que encaminhá-los a um radiologista”. A dificuldade seria ainda maior no caso das pessoas com transtornos de ansiedade, que constituem 18% da população.

Como alternativa ao problema, sua equipe idealizou um sistema flexível e colaborativo que não só alivia a carga dos médicos, psiquiatras e psicólogos, como facilita o atendimento dos pacientes que precisam de ajuda. Ao associar os recursos de profissionais não especializados – enfermeiros ou clínicos com mestrado que possuem algum treinamento em controle de ansiedade – a um sistema on-line de acompanhamento da evolução do paciente, o plano de tratamento pode se adaptar a esses pacientes e eliminar o problema de encaminhá-los a dispendiosos psiquiatras ou psicólogos. Além disso, o plano permite que os especialistas dediquem mais tempo aos pacientes mais necessitados dos seus cuidados.

Para realizar a pesquisa, a equipe selecionou uma amostra de 1.004 pacientes que apresentavam ao menos um tipo de transtorno de ansiedade (acompanhado ou não de depressão), e os distribuiu aleatoriamente em dois grupos de tratamento: um grupo experimental, que oferecia as opções de terapia medicamentosa prescrita por médicos supervisores, terapia cognitivo-comportamental auxiliada por computador, ou uma combinação de ambas; e um grupo de controle, que recebia o tratamento padrão (via médico de atenção primária, aconselhamento psicológico ou medicação).

No grupo experimental, os pacientes que recebiam medicação eram informados sobre o tipo e dosagem do remédio, e orientados sobre hábitos saudáveis de vida (como higiene do sono e dicas de comportamento). Os que recebiam terapia comportamental eram atendidos por um enfermeiro ou um clínico com nível de mestrado e trabalhavam com um programa de computador que, além de fornecer perguntas, exemplos e vídeos para orientar as sessões, personalizavam e reforçavam conceitos. Médicos, psiquiatras e psicólogos das unidades de atenção primária supervisionavam a evolução dos pacientes e dos que os atendiam por meio de um sistema on-line de monitoramento, que mapeava a presença, o desempenho e o bem-estar dos participantes, o que permitia aos especialistas acompanhar o processo à distância e intervir quando necessário.

O grupo experimental era aberto às mudanças de necessidades dos pacientes. O médico permitia, por exemplo, que um paciente mantivesse um determinado nível de medicação, mesmo se este não estivesse se mostrando eficaz. Mas se um paciente não estivesse melhorando sob um procedimento adotado (como terapia cognitivo-comportamental ou tratamento farmacológico), o médico poderia notar isso imediatamente e recomendar ações alternativas.

Após uma série de acompanhamentos cegos dos pacientes (aos 6, 12 e 18 meses após o início do estudo), os pesquisadores descobriram que, com apenas seis ou oito sessões, a média dos pacientes do grupo experimental mostrava “sintomas realmente desprezíveis”. Nesse grupo de tratamento flexível e monitorado, 51% das pessoas mostravam remissão dos sintomas aos 18 meses – comparados a 36% do grupo de controle.

Segundo Roy-Byrne, os resultados mostraram como se poderia usar a tecnologia para tratar uma ampla gama de transtornos de ansiedade. E, dado que o modelo do grupo experimental se mostrou eficaz para as diferentes manifestações do distúrbio, ele poderá ajudar as muitas pessoas que apresentam mais que um dos sintomas – “o que é a regra, e não a exceção”, ele observou.

Com a estratégia administrada por clínicos, baseada em provas, “você consegue que muitas pessoas melhorem rapidamente”, acrescentou o pesquisador, a quem também não escapam as implicações sociais do modelo. Para ele, “estão contados” os dias de aplicação dos dispendiosos serviços de psiquiatria de investigação profunda a qualquer questão secundária de saúde mental.

“Como você pode distribuir o conhecimento especializado de forma mais responsável?”, questiona Roy-Byrne. Sua conclusão é que, com um protocolo de tratamento baseado em provas, os figurões da psiquiatria e da psicologia podem ser reservados aos que realmente precisam deles.

Fonte: Scientific American Brasil

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