Pensando Pesado

Oi, gente. Meu nome é João S., e eu penso demais.

Começou de um jeito bem inocente. Eu comecei a pensar socialmente em festas de vez em quando, só pra me soltar. Mas uma coisa levava a outra, e logo eu pensava não só socialmente.

Aí eu comecei a pensar sozinho “para relaxar”, eu me dizia. Mas eu sabia que não era verdade. Pensar era cada vez mais importante para mim. Depois de um tempo, não consegui me controlar mais e passei a pensar o tempo inteiro.

Comecei a pensar até no trabalho. Eu sei que não se pode misturar pensamento e trabalho, mas eu não conseguia evitar. Alguns colegas começaram a notar meu olhar de concentração profunda, e que eu sempre estava com um livro de filosofia. Eu sumia no almoço e ia para um parque para ler alguns capítulos de Ayn Rand, ou só sentava ali olhando para o infinito, perdido nos meus pensamentos. Logo todo mundo percebeu que eu estava pensando fora de controle, e que estava pensando a maior parte do dia, todos os dias.

Eu comecei a evitar amigos no almoço para ler Thoreau e Kafka. Eu voltava para o escritório meio tonto e confuso, perguntando “afinal de contas, o que estamos fazendo aqui?”

Em casa as coisas também não iam às mil maravilhas. Uma noite, depois de pensar quase o dia inteiro no trabalho, eu desliguei a tevê e perguntei à minha esposa o significado da vida. Ela dormiu aquela noite na casa da mãe.

Eu logo ganhei a reputação de estar pensando demais. Um dia, quando sabia que não podia mais esconder isso, meu chefe me chamou até o seu escritório. Ele disse:

“João, eu gosto de você, e me dói dizer isso, mas o seu costume de pensar se tornou um problema. Se você não parar de pensar no trabalho, vou ter que despedi-lo. Não tem como tocar um negócio se todos os funcionários começarem a pensar. Mais cedo ou mais tarde, alguém vai se machucar. Procure um profissional.”

Isso me deu o que pensar.

Naquele dia, cheguei mais cedo em casa depois da conversa com o chefe. “Querida”, falei, “eu tenho pensado… ”

“Eu sei que você tem pensado, disse ela, e eu quero me separar! ”

“Mas querida, não é tão sério.”

“É sério sim, disse ela, com o lábio inferior tremendo. Você pensa tanto quanto aqueles professores universitários, e professores universitários não ganham dinheiro! Se você não parar de pensar, não vamos conseguir mais pagar as contas! ”

“Esse é um falso silogismo”, afirmei impacientemente, e ela começou a chorar. Tinha sido a gota d’água para ela, e para mim também. “Vou para a biblioteca”, grunhi, e saí violentamente porta afora.

Fui na direção da biblioteca, a fim de um pouco de Nietzsche e escutando a Rádio Cultura no caminho. Entrei voando no estacionamento e corri até aquelas grandes portas de vidro… mas elas não abriam. A biblioteca estava fechada. Até hoje, acredito que uma Força Superior olhava por mim naquela noite, ou pelo menos foi isso que pensei na época.

Enquanto escorregava para o chão, agarrado na porta, soluçando por um pouco de Platão ou Sócrates, um cartaz me chamou a atenção. Dizia: “Amigo, o pensamento está acabando com a sua vida?” Você provavelmente conhece essa frase. É o cartaz-padrão dos Pensadores Anônimos.

É por isso que estou aqui hoje: eu pensava demais e estou me recuperando. Eu nunca perco um encontro dos PA. Em cada encontro nós assistimos um vídeo não-educacional; semana passada foi “Porky contra-ataca”. Depois falamos de nossas experiências sobre como evitar o pensamento desde o último encontro.

Eu consegui meu emprego de volta, e as coisas estão bem mais fáceis agora. Minha esposa e eu nunca falamos sobre aquela época horrível quando eu pensava o tempo inteiro. A vida ficou… mais fácil, de certa maneira, agora que eu parei de pensar.

Autor desconhecido

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