Cordilheira: o não-pertencimento humano e o desejo de maternidade

Cordilheira (Companhia das Letras, 2008) romance escrito por Daniel Galera conta a historia da jovem escritora brasileira, Anita van der Goltz Vianna, que acabou de publicar seu primeiro romance e que obteve um grande sucesso, porém, após ver toda uma carreira literária sendo formada pela frente Anita resolve que quer abandonar tudo aquilo que promete ser uma promissora carreira literária e ter uma nova vida, ela descobre que seu sonho é ser mãe, ela deseja ter um filho, e é isso que Anita passa a buscar, com isso propõem a ideia de que o namorado possa ser pai de seu filho. Porém, seu namorado recusa, alegando vários motivos, como por exemplo, os dois são muito novos para isso e que ela ainda tem uma futura carreira como escritora e que um filho agora só iria dificultar todos esses planos. Com isso eles rompem o relacionamento, após isso Anita é convidada a lançar seu romance em Buenos Aires, mas ao chegar em Buenos Aires ela começa por se envolver com um fã argentino que faz parte de um grupo que possui hábitos um tanto diferentes em relação a literatura. Anita ao se envolver com esse fã vê nisso a possibilidade de se tornar mãe, a partir daqui toda a trama acontece, mudanças inesperadas e experiências nada comuns ocorrem com Anita que precisa se encontrar e descobrir quem é no mundo do qual ela não faz parte.

No romance de Daniel Galera vemos a personagem, Anita, que esta atrás do sentido da vida, a eterna busca de quase todos os seres humanos, e vê o desejo de ser mãe como realizador de sua vida, como aquilo que falta a todos os seres humanos. Porém esse desejo é barrado pela realidade da sua vida, ou por seu namorado, Danilo, que vislumbra nisso como um obstáculo para a sua vida e de Anita.

Sabemos que em nossa sociedade as mulheres estão cada vez buscando um lugar de destaque entre muitos homens que possuem esse lugar como herança simbólica da sociedade para todas as gerações, porém, Anita não deixa de ser uma mulher de uma nova geração de mulheres, essa nova geração feminina não apenas busca lugares de destaque, mas, acima de tudo são mulheres que estão saindo da posição de objetos de desejo e querem ser também seres desejantes, que idealizam algo para a sua vida, algo que dê sentido para a vida, e buscam por isso, não é porque Anita não queira ser uma mulher de poder que ela não faça parte desse novo mundo, ela se constitui como uma mulher desejante que busca algo para sua vida, e no caso de Anita ela que ser mãe. Ela deseja deixar todo um mundo dito de oportunidades para poder ser mãe.

Mas, como vemos Anita impossibilitada de realizar seu desejo ela se sente frustrada com todo esse cenário, ela passa a viver um sentimento de afastamento do lugar que ela vive, ao lado do namorado, mas não só seu namorado que vai contra seu desejo, suas amigas também não concordam com a idéia e até seus editores não simpatizam com isso. Anita passa a se sentir afastada de todo aquele ambiente, Anita passa a se sentir só. Após isso Anita viaja a Buenos Aires para o lançamento de seu romance em espanhol e lá conhece Holden, o argentino fã de seu romance, e passa a ter um relacionamento com ele e ao passo que se envolve com ele também conhece seus amigos de hábitos diferentes, são pessoas que publicaram romances e que desejam viver sua vida igualmente como à de personagens, mesmo que isso leva a morte —, ao desenvolver da trama, Holden partilha com Anita seu plano, que é ter o mesmo fim do personagem de seu romance, ele deseja ser empurrado do cume de uma montanha, como seu personagem no romance que ele escreveu que é jogado do cume de uma montanha pela pessoa amada, para Holden a jovem escritora é perfeita para realizar seu desejo, e Anita com isso vê em Holden a possibilidade de realizar seu desejo, e por fim ela descobre que esta grávida dele, mas ela chega a conclusão que aquilo é uma troca justa: a morte de Holden pelo nascimento de seu filho, porém ao desenrolar de toda a trama no final do livro Anita acaba por perder o bebê.

Com isso vemos uma Anita deslocada em relação ao realizar o sentido de sua vida, Anita é apresentada como tendo a vida formada por tragédias, a perda da mãe no parto, a morte do pai num acidente de carro, e o suicídio de sua amiga, e após todos esses episódios ela perde seu filho em complicações orgânicas.

Anita sempre esta deslocada ao meio que está inserida, como por exemplo, em São Paulo ao lado do namorado que não quer auxiliá-la na realização de seu desejo, a vida formada por tragédias que formam a personalidade de Anita, e em Buenos Aires uma Anita que não acredita e acha loucura a proposta de Holden e seus amigos, o deslocamento da língua (Anita não sabe falar muito espanhol), a estranheza em relação a vida naquela cidade, e por fim, a perda de um filho, Anita é uma mulher que não consegui se inserir no mundo por que não consegue realizar seu desejo por isso não consegue encontrar sentido na vida, Anita é uma personagem de identidade confusa, sem raízes num ambiente, sem firmamento.

Mas, por Anita ser uma pessoa que está em busca de si e que ainda não encontrou sua essência, e por esse motivo, que ela é a heroína da trama, mesmo como uma vida de tragédias, ela representa toda uma nova geração de pessoas, não só feminina, que enxerga um futuro incerto e um mundo não muito bonito e que por isso mesmo está em busca de si num mundo que ainda é formado por crenças que estão em ruínas, mas que ainda sufocam, mas é uma geração que está em busca de sua identidade.

* * *

Daniel Galera nasceu em São Paulo, em 1979, e vive em Porto  Alegre. É escritor e tradutor. Foi um dos criadores do selo editorial Livros do Mal onde teve sua estréia com o livro de contos Dentes Guardados (2001), e publicou pela Companhia das Letras seus romances Até o dia que o cão morreu (2003) que também foi adaptado para o cinema por Beto Brant e Renato Ciasca com o nome de Cão sem dono, o romance Mãos de Cavalo (2006) e Cordilheira (2009) e em 2010 publicou a graphic novel Cachalote, em parceria com o quadrinista Rafael Coutinho. Seus livros estão sendo publicados na Argentina, em Portugal e na Itália.

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Cleison Guimarães é acadêmico de Psicologia. É escritor iniciante e blogueiro. Visite seu blog, o Caleidoscópio (http://cleisonguimaraes.tumblr.com). Siga-o no twitter: http://twitter.com/cleisonguiraes.

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