O dia em que a Psicologia salvou a Coca-Cola.

 

Na noite de quinta-feira, 20 de outubro de 1909, agentes federais pararam um caminhão na rodoviária perto de Chattanooga, Tennessee. Era a apreensão de uma droga, de acordo com uma lei recentemente decretada pela Food and Drug Administration (FDA). Seu objetivo era o carregamento de 40 barris e 20 galões contendo uma substância que o governo alegava ser venenosa e viciadora. O xarope nos galões e barris era a base de Coca-Cola; o ingrediente mortal e viciante era a cafeína.

Se considerado culpado, o diretor da empresa Coca-Cola estaria em sérias dificuldades. Não fizeram economia preparando-se para o caso que finalmente foi a julgamento em 1911. À medida que a data se aproximava, os advogados da empresa perceberam que não tinham nenhuma prova para demonstrar que a quantidade de cafeína no refrigerante não tinha efeitos prejudiciais sobre o comportamento humano ou sobre os processos de pensamento. Precisaram recrutar um psicólogo para conduzir um impressionante programa de pesquisa – e torcer para que os resultados provassem essa ideia.

Primeiro, pediram a James McKeen Cattel, um dos psicólogos mais famosos dos Estados Unidos, mas ele não estava interessado. Assim como também muitos outros. Mas um homem ficou ansioso para aceitar o que percebeu ser uma grande oportunidade. Seu nome era Harry Hollingworth.

“Trabalhar ali tinha dois motivos”, ele escreveu. “Preciso de dinheiro, e ali estava uma oportunidade de aceitar um trabalho para o qual havia sido treinado, incluindo não só o custo da pesquisa, mas também um salário satisfatório para cobrir meu tempo e serviço” (apud Benjamin, Rogers e Rosenbaum, 1991, p.43).

Na época, Hollingworth lecionava na Barnard College, em Nova York, recebendo um salário de subsistência. Sua esposa, Leta Stetter, não havia conseguido um trabalho lecionando (por ser casada), e não havia conseguido vender seus contos. Ela tinha esperanças de conseguir fazer um curso de pós-graduação, mas não tinham condições financeiras para pagá-los. Mas, graças ao caso da Coca-Cola, ela foi indicada como diretora assistente do programa de pesquisa e, juntos, os Hollingworth passaram a ganhar o suficiente para pagar seu curso no programa de pós-graduação.

Entretanto, apesar do salário, Harry Hollingworth insistiu em elevados padrões éticos. Ele não seria acusado de achar somente as respostas que a empresa desejava, e a Coca-Cola aceitou suas exigências. Teria a permissão para publicar os resultados, até mesmo se fossem prejudiciais para a empresa; por sua vez, a empresa concordou em não usar os resultados em propaganda, mesmo que fossem favoráveis.

Os 40 dias de programa intenso, tão rigoroso e sofisticado quanto qualquer outro conduzido no laboratório mais equipado da melhor universidade, envolveu aproximadamente 64 mil medidas individuais. Os dados foram registrados com base em uma grande variedade de funções motoras e mentais avaliados com doses diferentes de cafeína. Não foram encontrados efeitos prejudiciais ou declínios significativos no desempenho.

A Coca-Cola ganhou o caso, embora a sentença tenha sido derrubada posteriormente pela Suprema Corte, e os efeitos disso sobre os Hollingworths e a psicologia como um todo foram profundos. Eles demonstraram que a pesquisa experimental sólida pode ser financiada por uma entidade corporativa de grande porte, sem ditar ou prejudicar os resultados. Um efeito mais duradouro foi saber que psicólogos podiam ter carreiras bem-sucedidas e financeiramente recompensadoras em psicologia aplicada, sem desafiar sua integridade.

Texto extraído do livro: História da Psicologia Moderna.

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