“Clarice,” aborda a busca de Deus, a perda da beleza juvenil e a velhice da escritora

MARTA BARBOSA
Colaboração para o UOL

Talvez a mais interessante biografia da escritora, "Clarice," aborda a busca de Deus, a perda da beleza juvenil e sua velhice

Lançamentos sobre Clarice Lispector não chegam a ser novidade. Entre biografias, adaptações e novas edições de seus livros, a autora, mesmo 32 anos depois de sua morte, está sempre nos destaques das livrarias do Brasil e de outros países. É uma personagem memorável, marcante por sua obra e inesquecível por sua personalidade, como mostra “Clarice,”, talvez a mais interessante biografia da escritora, (ironicamente) assinada por um americano, o colunista da Harper’s e tradutor do português Benjamin Moser (tradução de José Geraldo Couto, Cosac Naify).

Em 640 páginas, Benjamin apresenta Clarice. A começar pelo sentimento de não pertencer, e o desejo de pertencer, que acompanhou a escritora por toda a vida, fosse ela a adolescente do Recife, a mulher de diplomata na Europa ou a escritora elevada ao posto de ícone no Rio de Janeiro. Clarice nunca sentiu pertencer a lugar algum, por mais que quisesse.

Trabalho de pesquisa primoroso, que ultrapassa as fronteiras do Brasil e chega a Tchechelnik, o “cantinho do enorme império do czar, na província ucraniana ocidental da Podólia” onde Clarice nasceu. Uma cidade descrita pelo autor por sua “periclitante arquitetura de aldeia, pitorescamente pintada de verde e púrpura” onde o governo brasileiro ergueu um monumento à escritora.

Ali, numa região de vistas a colinas verdes, a gente fica imaginando quem seria Clarice se a guerra não tivesse feito sua família migrar ao Brasil. Quem seria Clarice se tivesse crescido ali, na aparente calmaria de uma região de fronteira que, nos séculos 15 e 16, eram os impérios turco e polonês.

Nessa cascavilhada no baú de memórias de Clarice, conhecemos seu avô, Shmuel Lispector – um personagem clariceano por excelência. “Protótipo do judeu estudioso e devoto do Leste Europeu”, por toda a vida foi fiel ao mandamento que proíbe a reprodução da figura humana e, por isso, nunca permitiu ser fotografado.

Além do excelente trabalho de pesquisa, Benjamin Moser acrescenta muito à biografia de Clarice quando estabelece um percurso de compreensão da escritora. Do começo ao fim do livro, o autor defende que a vida e a obra de Clarice tiveram como principal motivação a busca de Deus. Parte do lugar-comum cabalístico “Deus é nada” e chega à frase de uma das mais célebres personagens de Clarice, G.H.: “Deus é o que existe, e todos os contraditórios são dentro do Deus, e por isso não O contradizem.”

Mostra também uma face desesperada de Clarice, como no episódio do incêndio em sua casa, quando sofreu queimaduras de terceiro grau na mão que usava para escrever, e também nas pernas. Além da dor, que fez a escritora gritar pelo passado, pelo presente e pelo futuro, o acidente parece ter sido o início de um processo (doloroso) de reconhecimento da velhice.

Mais de uma vez, e a mais de uma pessoa, Clarice Lispector deu provas de não aceitar com tranquilidade a perda da beleza da juventude. No final da vida, passou a ter uma rotina de reclusão, evitando até mesmo os passeios pelo bairro. Falava do passado com o rancor de quem perdeu ao longo do tempo, e não de quem ganhou. Era vaidosa ao extremo de ser maquiada mesmo dormindo, dopada de tranqüilizantes.

A escritora falava com nostalgia do prazer de ser considerada bonita. “Isto, sim. Me fez um bem enorme. Eu tive muitos admiradores. (…) Há homens que nem em dez anos me esqueceram. Há o poeta americano, que ameaçou suicidar-se, porque eu não correspondia.”

Interessante também conhecer pelo livro que o processo de criação de umas das maiores escritoras de língua portuguesa era cercado de caos. Clarice trabalhava em meio à bagunça dos filhos Paulo e Pedro, que a interrompiam constantemente. Quando não eram os meninos, era o telefone que tocava, a empregada que fazia barulho enquanto limpava os cômodos do apartamento. As anotações da escritora ficavam espalhadas por toda a casa.

Mesmo assim, e contra toda lógica, Clarice Lispector escreveu alguns dos livros mais importantes da literatura brasileira. Conseguiu com sua escrita ser elevada ao lugar de semi-Deus – espaço que tomou consciência de ocupar. E que Benjamin Moser, que seu primoroso trabalho de imersão à vida da musa, apresenta de forma clara, simples e bastante inspiradora.

“CLARICE,”
Autor: Benjamim Moser
Tradução: José Geraldo Couto
Editora: Cosac Naify
Páginas: 640
Preço sugerido: R$ 79

Fonte: Uol

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