Perigosas ligações

Choros, gritos, gestos descontrolados e outras manifestações dramáticas diante de uma frustração podem ser resultado de imperfeições cerebrais; pesquisadores buscam compreender comportamentos exagerados que destroem relacionamentos e minam a possibilidade de uma vida equilibrada

por Ophelia Austin-Small*

© david williams/illustration works/corbis/latinstock

Minha prima S. me telefonou às 21h, chorando de forma descontrolada. Tudo começou com os cabelos, ela tinha certeza de estar ficando careca, apesar de não ter nenhum indício concreto dessa constatação. A remota possibilidade de sua suspeita se confirmar fazia com que ficasse desesperada. Também estava preocupada com sua vida profissional. Embora seu trabalho como auxiliar de ensino a “deixasse realizada e repleta de amor e alegria, infinitamente grata por essa oportunidade”, como costumava dizer, tinha certeza de que seu chefe tinha lhe lançado um olhar desagradável na hora do almoço, fazendo com que se sentisse muito ansiosa. Mais tarde, quando ligou para o namorado, pareceu-lhe que o rapaz a atendeu de forma seca. Com medo de que ele terminasse o relacionamento, fechou-se no banheiro do escritório e chorou durante quase uma hora, deixando de terminar seu trabalho e impedindo que os outros usassem o local. A atitude de seus colegas dividia-se entre preocupação e irritação.

Quem conhece S. há mais tempo, no entanto, não costuma se alarmar com essas crises, pois sabe que ela costuma “fazer drama”, com frequência reage aos acontecimentos cotidianos com emoção excessiva, inadequada, de forma teatral e inevitavelmente chamando a atenção – e incomodando – aqueles que estão por perto. Infelizmente ela não é uma exceção. Pessoas assim são conhecidas em seu círculo social por estragar um almoço informal, contando com detalhes uma longa história sobre a briga homérica com a namorada ou por abusar da atenção de colegas de trabalho, obcecadas com a ideia de que estão para perder o emprego ou precisam de ajuda para conseguir superar as dificuldades de seu dia. Os dramáticos são capazes de “adorar” alguém em um minuto e no momento seguinte odiá-lo com a mesma intensidade, sempre se expressando de maneira exagerada e supervalorizando acontecimentos sem maior relevância.

É comum que pessoas assim sejam extremamente volúveis, impulsivas e cultivem relacionamentos tumultuados, marcados por explosões, competição e agressividade. A tônica dessas relações parece ser os constantes altos e baixos, o que leva alguns psicólogos a chamar esse estilo de namoro ou casamento de “montanha-russa”, já que o casal tem grandes brigas e logo depois se entrega a calorosas reconciliações. É frequente que parceiros de pessoas tão impetuosas sejam vistos (e vejam a si mesmo) como “vítimas” da situação. Mas não é bem assim: não raro, os dois perfis tendem a se complementar, o que resulta em parcerias destrutivas. E essas duplas não se mantêm por acaso; os envolvidos apresentam “características complementares” que terminam por perpetuar a situação. Indivíduos com transtorno de personalidade histriônica, segundo classificação psiquiátrica, são extremamente emotivos e buscam a atenção com uma necessidade constante e excessiva de aprovação. Em relações de amizade ou em casos de convivência por contingência (na escola ou no trabalho, por exemplo) esses “pares complementares” também costumam se formar.

Morar ou trabalhar com gente com essas características costuma ser uma experiência cansativa e confusa. No ambiente profissional, por exemplo, a labilidade tão pronunciada de humor não só abala a própria produtividade, mas também a dos que estão por perto e, não raro, prejudica indiretamente toda a equipe. Invariavelmente, aqueles que convivem em casa com alguém exageradamente dramático são bombardeados por acusações, seguidas de tentativas nada discretas de desculpas, numa alternância de estados emocionais que podem variar, em poucas horas, da irritação e agressividade à sensação intensa de culpa, seguida de desalento e profunda exaustão, próxima à apatia. Alguns dramáticos se voltam de forma violenta contra quem está por perto, enquanto outros ameaçam cometer suicídio e chegam a ferir-se quando estão muito exaltados. Em geral, o comportamento radical está associado à depressão ou à ansiedade. O que nem todos sabem é que por trás dessas atitudes pode haver um distúrbio, em grande parte atribuído ao sofrimento enfrentado nos primeiros anos de vida.

Na maioria dos casos, os traços destrutivos são difíceis de ser modificados sem ajuda profissional. Quando esses comportamentos extremados fogem ao controle, passam a permear a maioria das áreas da vida, podendo caracterizar distúrbios psiquiátricos específicos, como o transtorno de personalidade borderline (TPB) – ou personalidade limítrofe.

Afinal, o que desencadeia tanto drama? O que faz com que divergências de opiniões e desentendimentos que poderiam ser facilmente resolvidos com tranquilidade se tornem verdadeiras tragédias? Um trauma vivido na infância pode ser o motivo em alguns desses casos. O psiquiatra Bruce Perry, da Academia de Trauma Infantil, em Houston, descobriu que o cérebro de crianças que passaram por vivências traumáticas – tais como abuso sexual, conflitos armados ou desastres naturais – podem sofrer alterações químicas, que atingem certas regiões neurais. Em razão disso, essas áreas tornam-se instáveis e supersensíveis a estímulos – o que, na prática, resulta na incapacidade de avaliar de forma adequada certos estímulos sociais e ambientais.

Segundo especialistas, a negligência na infância também é um fator de risco. Se os pais (ou aqueles que cumprem as funções paterna e materna) ignoram, menosprezam ou rejeitam sentimentos, ideias e experiências de uma criança, ela pode “decidir” que as representações dramáticas – desde se vestir de modo provocante até inventar histórias mirabolantes ou ter crises de descontrole – são necessárias para captar a atenção alheia. Com o passar dos anos, a intolerância à frustração e essa forma de se relacionar consigo mesmo e com os outros se tornam arraigadas.

A genética também pode contribuir para a instalação desse quadro. O comportamento exagerado se repete nas famílias, segundo o resultado de um estudo coordenado pelo psiquiatra John Gunderson, da Faculdade de Medicina da Universidade Harvard. A equipe de pesquisadores descobriu que 27% dos parentes de pacientes com TPB reproduziam em seus relacionamentos padrões muito similares ao da pessoa em tratamento, embora esses aspectos muitas vezes se mostrassem atenuados. Entre aqueles que tinham vínculos familiares com pessoas diagnosticadas com outros transtornos de personalidade, apenas 17% desenvolviam traços do distúrbio borderline. Os fatores ambientais compartilhados – especialmente as práticas parentais observadas e aprendidas pelas crianças – podem desempenhar um papel preponderante nesse padrão. Gunderson acredita, porém, que variações genéticas ainda não descobertas possivelmente também predispõem alguns integrantes da família a dificuldades com relações afetivas e equilíbrio de humor.

CIRCUITO ALTERADO

CENA DO FILME VICKY CRISTINA BARCELONA (2008): casal interpretado por Penélope Cruz e Javier Barden vive entre brigas e reconciliações

Sejam quais forem as raízes de sua personalidade, o cérebro de pessoas descontroladas e afeitas a protagonizar cenas repletas de lágrimas, gestos amplos e gritos parece ser constituído de forma diferente do de pessoas mais equilibradas. Em 2007, a psiquiatra Emily Stern e seus colegas da Faculdade de Médicina de Weill Cornell usaram imagens de ressonância magnética funcional para medir a atividade cerebral de 14 voluntários saudáveis e de 16 com TPB enquanto eles desempenhavam uma tarefa que demandava reação diante de palavras negativas, positivas e neutras. Os pacientes de TPB demonstraram atividade diminuída na parte do córtex pré-frontal, que controla ações como planejamento e as reações emocionais, quando tiveram de inibir a resposta para uma palavra negativa – nesse caso, pressionando um botão.

Os estudiosos acreditam que pessoas especialmente dramáticas e aflitas parecem ter uma rede de circuitos menos potentes para a inibição de reações inadequadas a emoções negativas, o que torna difícil para eles controlar as respostas exageradas. Eles também podem ter emoções mais intensas: no estudo de Cornell, a amígdala, uma área do cérebro que processa os sentimentos, se mostrava hiperativa em pacientes de TPB.

No dia a dia, as consequências dessa alteração na rede de circuitos neurais deixam uma trilha de angústia. A inconstância afeta a concentração, a eficiência e o bom relacionamento no trabalho; na vida pessoal impede relacionamentos estáveis. Nesses casos, o acompanhamento psiquiátrico e psicológico costuma ser a providência mais eficaz para quem apresenta o distúrbio. A ajuda psicoterapêutica também é valiosa para aqueles que se veem obrigados a lidar com essas pessoas – ou, por razões afetivas, desejam conviver com elas. Compreender a dinâmica de determinadas atitudes pode ser fundamental para se desidentificar de padrões nocivos, abrandar seus efeitos – e libertar-se da prisão que significam.

Armadilhas do drama
Conviver com uma pessoa emocionalmente instável requer alguns cuidados para evitar envolver-se em desgastes intensos – e desnecessários. Algumas estratégias podem ser úteis:

Estabeleça limites. Defina – primeiro para si e depois para a pessoa – quanto tempo pretende passar na companhia dela e quais assuntos está disposto a discutir. Mencione seus constrangimentos e, ao receber um telefonema dela, por exemplo, diga claramente, logo no início da conversa, quantos minutos tem para atender aquela ligação.

Fique atento. Não quebre suas próprias regras estendendo uma conversa, trocando fofocas ou fazendo convites por pena ou culpa. Pense que isso não vai ser bom para nenhum dos dois. Se quiser encontrá-la, tenha claro que se trata de uma opção sua e arque com os possíveis desconfortos decorrentes.

Não entre no “jogo”. Mantenha a calma caso o interlocutor se exalte, e evite reagir de forma também dramática. O uso de palavras e expressões como “nunca mais”, “ódio” ou “desgraça” tende a ampliar a emoção.

Valorize a positividade. Algumas pessoas gostam de conversar detalhadamente sobre uma situação, mas às vezes essa análise, quando feita de maneira repetitiva, apenas intensifica as desavenças e realimenta a discórdia. Para evitar essa armadilha, ouça o que o outro diz, mas procure se concentrar nos pontos positivos e, principalmente, no que pode ser feito para melhorar a situação.

Registre. Se as atitudes de um colega dramático perturbarem seu ambiente de trabalho, documente os episódios, anotando data, hora e natureza dos conflitos. Se a situação se tornar mais grave, pode ser necessário informar seus chefes ou o departamento de recursos humanos sobre o problema.

Considere cortar os laços. Se apesar de seus esforços o relacionamento se tornar prejudicial, talvez seja necessário evitá-lo, mesmo que para isso seja preciso mudar de emprego ou se separar do cônjuge. A ajuda de um terapeuta pode ser fundamental para avaliar de que forma essa relação o prejudica, quais são as questões pessoais que o fazem preservá-la e se vale a pena insistir nela.

*Ophelia Austin-Small é jornalista científica.

Fonte: Mente Cérebro

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