Meio e Linguagem

Por: Hélio Schwartsman

Se há um ramo fervilhante na ciência hoje, é o da linguística. É incrível como essa disciplina, até alguns anos atrás um bastião das humanidades, estrategicamente encravada nos departamentos de letras das universidades, se tornou uma ciência dura, capaz de, no melhor estilo popperiano, produzir previsões falseáveis e que comporta sofisticadas análises estatísticas. Beneficiária direta de avanços em dois dos mais dinâmicos ramos do saber –a neurociência e a computação–, a linguística se tornou frequentadora contumaz das principais revistas científicas. Na semana passada, ela marcava presença tanto na “Nature”, com um artigo de Michael Dunn sobre a ordem das palavras em várias famílias de idiomas, e na “Science”, com um trabalho de Quentin Atkinson sugestivo de que a linguagem humana surgiu na África.

Mais tarde volto a esses trabalhos. Antes, acho importante mencionar que um dos principais responsáveis pela conversão da linguística em ciência dura foi Noam Chomsky (1928 -), com sua teoria da Gramática Universal, segundo a qual seres humanos já nascem equipados com um “hardware” linguístico em seus cérebros, isto é, geneticamente dotados de alguns princípios gramaticais comuns a todos os idiomas.

Há de fato boas evidências em favor da tese. A mais forte delas é o fato de que a linguagem é um universal humano. Não há povo sobre a terra que não tenha desenvolvido uma, diferentemente da escrita, que foi “criada” de forma independente não mais do que meia dúzia de vezes em toda a história da humanidade.

Também diferentemente da escrita, que precisa ser ensinada, basta colocar uma criança em contato com um idioma para que ela o aprenda quase sozinha. Mais até, o fenômeno das línguas crioulas mostra que pessoas expostas a pídgins (jargões comerciais normalmente falados em portos e que misturam vários idiomas) acabam desenvolvendo, no espaço de uma geração, uma gramática para essa nova linguagem, como mostram os trabalhos de Derek Bickerton. Outra prova curiosa é a constatação de que bebês surdos-mudos “balbuciam” com as mãos exatamente como o fazem com a voz as crianças falantes.

O principal argumento lógico usado por Chomsky em favor do inatismo linguístico é o chamado Pots, sigla inglesa para “pobreza do estímulo” (poverty of the stimulus). Em grandes linhas, ele reza que as línguas naturais apresentam padrões que não poderiam ser aprendidos apenas por exemplos positivos, isto é, pelas sentenças “corretas” às quais as crianças são expostas. Para adquirir o domínio sobre o idioma elas teriam também de ser apresentadas a contraexemplos, ou seja, a frases sem sentido gramatical, o que raramente ocorre. Como é fato que os pequeninos desenvolvem a fala praticamente sozinhos, Chomsky conclui que já nascem com uma capacidade inata para o aprendizado linguístico, um instinto da linguagem.

Embora essa teoria jamais tenha tido aceitação incondicional, ela se tornou o “mainstream” na linguística norte-americana. Mesmo os que discordam do modelo ou colocam ênfase em outros pontos acabam tendo de dialogar nos termos colocados pelos gerativistas, como são conhecidos os linguistas que embarcaram nos programas de pesquisa levantados pela Gramática Universal.

Os dois trabalhos publicados na semana passada, como muitos outros, lançam desafios ao modelo chomskyano. Comecemos pelo mais simples –e menos problemático–, que é o de Atkinson. Esse pesquisador da Universidade de Auckland trabalha com a ideia de que línguas se comportam como seres vivos. Partindo da hipótese de que, a exemplo do que ocorre com populações animais, que têm seu “pool” genético reduzido pelo isolamento, idiomas têm seu repertório de fonemas empobrecido à medida que se afastam de seu local (e população) de origem. Testou 504 línguas e concluiu que a origem mais provável para todas elas era algum ponto da África meridional.

A linha-dura chomskyana, notadamente o linguista Mark Lieberman, questiona não só as premissas como também os resultados de Atkinson. O ponto central da discórdia é a forma de computar a diversidade fonêmica. A questão não é trivial, em especial quando se considera que a estrutura de sons de um idioma pode ser fruto tanto de uma herança quanto de uma inovação da própria língua. A analogia entre idioma e ser vivo só funciona até certo ponto.

De toda maneira, mesmo que chegássemos à extraordinária conclusão de que a língua humana surgiu uma única vez na África e daí foi exportada para todas as regiões do planeta, isso não constituiria um golpe fatal na Gramática Universal. É verdade que seria mais elegante para a teoria se idiomas tivessem múltiplas origens independentes umas das outras, mas os pressupostos do modelo não dependem disso. A universalidade da linguagem e o Pots continuariam vivos –e bem.

O artigo de Dunn, pesquisador do Instituto Max Planck de Psicolinguística, da Holanda, é mais complicado. Um dos pontos centrais do programa chomskyano tem sido o de que a sintaxe em qualquer idioma obedece a alguns parâmetros inatos, isto é, a restrições impostas pela Gramática Universal, que se materializam na ordem em que as palavras aparecem. Um exemplo: se o idioma é do tipo SVO (em que que sujeito costuma aparecer antes do verbo, o qual, por sua vez, antecede o objeto), então nele ocorrem preposições (termos como “para”, “em”, “sobre” são colocadas antes do substantivo que modificam). Se ele é SOV (sujeito, objeto, verbo), então temos posposições (os equivalentes de “para”, “em”, “sobre” vêm depois do substantivo). Versões mais “light” do modelo, como a proposta por Joseph Greenberg, trocam as restrições absolutas por tendências estatísticas.

O que Dunn fez foi estudar as correlações possíveis entre oito generalizações desse tipo em vários idiomas e descobriu que elas são significativas dentro de cada uma das quatro famílias linguísticas estudadas, mas não entre as linhagens, isto é, de forma universal. É um belo golpe contra o modelo chomskyano, em suas versões fortes ou fracas. O fato de o vínculo ser observado apenas dentro de cada família sugere que a estrutura profunda das línguas não é determinada por parâmetros universais, mas pela evolução cultural.

Os gerativistas estão certamente preparando sua artilharia. Sempre irônico, Lieberman já disse que achou o estudo muito interessante, mas duvida de seus resultados. As próximas semanas deverão ser agitadas nos blogs de linguística. Pelo que pude antever, a discussão terá altos teores de estatística, o que a tornará meio metafísica para nós, mortais comuns.

E esses são apenas os mais recentes numa série de ataques que o modelo vem recebendo. Em 2005, Daniel Everett um ex-missionário e linguista que trabalha com a tribo dos pirahãs, na Amazônia, relatou uma série de peculiaridades no idioma que desafiam pontos-chave da Gramática Universal. Eles não têm, por exemplo, palavras para cores, nem tempos verbais e só contam até três. A língua pirahã também desconheceria a recursividade, isto é, a capacidade de formar um número potencialmente infinito de sentenças encaixando uma frase na outra. Chomsky chamou Everett, seu ex-protegido, de charlatão. Foi um bafafá.

De modo mais equilibrado e baseados em novas e interessantíssimas pesquisas, linguistas como Lera Boroditsky e Guy Deutscher têm defendido que a linguagem é capaz de moldar o pensamento. Eles recolocam, ainda que de forma extremamente atenuada, quase razoável, a velha hipótese Sapir-Whorf, que era anátema nos meios chomskyanos. Se um dia faltar assunto, comento o delicioso livro de Deutscher.

O paradigma da Gramática Universal está em crise? A pergunta é boa, mas difícil de responder. Não podemos, é claro, descartar a hipótese de que o modelo sucumba ao peso de evidências devastadoras e venha a ser eventualmente substituído. Mas outra possibilidade, que me parece bem mais provável, é que a parte mais substancial da teoria sobreviva aos ataques e deles saia mais robusta, ainda que seja forçada a sacrificar algo do inatismo em favor de mais de espaço para características culturais. Seja como for, estamos diante da ciência em ação. É um contraste e tanto com o marasmo que vem notabilizando as ciências humanas nos últimos tempos.

Hélio Schwartsman, 44 anos, é articulista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou “Aquilae Titicans – O Segredo de Avicena – Uma Aventura no Afeganistão” em 2001. Escreve para a Folha.com.

Fonte: Folha.com

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