Os donos do português

Por que a nova geração de autores de Portugal faz livros de ficção tão melhores que os brasileiros

Danilo Venticinque e Luís Antônio Giron

CARAS NOVAS - Do alto, em sentido horário: Gonçalo M. Tavares, Miguel Sousa Tavares, Valter Hugo Mãe, Jorge Reis-Sá, Inês Pedrosa e José Luís Peixoto

No terreno da produção cultural, comparar Portugal e Brasil pareceria até desleal. Além de ter uma população 20 vezes maior que a de sua antiga metrópole, o Brasil tem passado por transformações econômicas e sociais que repercutem, positivamente, na produção artística do país. Apesar disso, a literatura brasileira derrapa, enquanto uma nova geração de autores portugueses ocupa as prateleiras, seduz a crítica internacional, arrebanha leitores e deixa os ficcionistas brasileiros a ver navios. Por quê?

À primeira vista, há pouco em comum entre os escritores que formam a atual geração de romancistas portugueses. O mais novo deles, Jorge Reis-Sá, tem apenas 34 anos. O mais velho, Miguel Sousa Tavares, já chegou aos 59. Enquanto alguns flertam com a linguagem experimental, como Valter Hugo Mãe, outros, como Inês Pedrosa, mostram-se mais conservadores – além de escrever em um estilo mais tradicional, a autora milita contra a reforma ortográfica e afirmou que não vai se render às novas regras. “Cada autor está interessado em criar livremente o que a sua natureza permitir”, afirma Mãe, um dos escritores convidados para a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). “Existem alguns de que gosto muito, outros de que gosto e uns quantos de que não gosto nada.”

O tom pouco condescendente revela uma das diferenças entre a cena literária brasileira e a portuguesa: não há espaço para camaradagem. “No Brasil, todos os escritores se conhecem, se gostam e se elogiam. O panorama português é um panorama mais tenso, mais ácido”, diz o crítico literário Luiz Maffei, pesquisador do Real Gabinete Português de Leitura.

A atitude crítica dos autores também se manifesta no conteúdo das obras. “A literatura portuguesa contemporânea destaca os aspectos sombrios da modernidade”, diz o crítico Manuel da Costa Pinto, curador da Flip. “A literatura brasileira é urbana, foca espaços da realidade periférica e não tem tanto vínculo com seu passado.” A obsessão brasileira pela questão social – ou mesmo o neorregionalismo de um Milton Hatoum – dá à literatura feita aqui um caráter local e provinciano, muito aquém da reflexão e dos vastos panoramas dos portugueses. O nosso pensamento crítico volta-se para temas como a luta de classes e a desigualdade social. Mas esses questionamentos se fundem a uma celebração ingênua da vida do país, sobretudo em romances que adotam a periferia como cenário. Para os autores brasileiros, seu país merece elogios, apesar de seus defeitos. Os portugueses encaram Portugal – e o homem português – como um problema a ser discutido e revisitado incansavelmente.

Um dos expoentes dessa tendência é José Luís Peixoto, de 36 anos. Apesar da pouca idade, o romancista e dramaturgo tem um currículo admirável. Em 2001, seu romance Nenhum olhar venceu o Prêmio Literário José Saramago e recebeu elogios do patrono da premiação. Outros romances do autor ganharam destaque em publicações internacionais, como o jornal inglês The Independent, o francês Le Figaro e o espanhol El País – uma projeção dificilmente obtida por um escritor brasileiro de qualquer idade e certamente inédita entre escritores da mesma geração que os portugueses. No exterior, Peixoto é elogiado por usar uma escrita moderna e experimental para falar de realidades arcaicas.

Entre os candidatos a sucessores de José Saramago (1922-2010), único escritor de língua portuguesa a vencer o Nobel de Literatura, a principal aposta dos acadêmicos é Gonçalo M. Tavares, de 40 anos. Nascido em Luanda, Angola, e criado em Portugal, Tavares já foi traduzido para mais de 40 idiomas. O único brasileiro comparável a ele em importância, Bernardo Carvalho, de 50 anos, chega à marca das dez línguas, sem grande repercussão crítica. Em 2007, Tavares foi o primeiro autor português a vencer o prêmio Portugal Telecom. “Gonçalo não tem o direito de escrever tão bem aos 35 anos. Dá vontade de lhe bater”, disse José Saramago.

Tavares diferencia-se dos conterrâneos por buscar uma literatura menos baseada em Portugal e mais inspirada na tradição centro-europeia. Em sua obra, as grandes navegações e a Revolução dos Cravos dão lugar ao Holocausto e à Segunda Guerra Mundial, e escritores como T.S. Eliot, Franz Kafka e Robert Walser tornam-se personagens. Ele exibe uma erudição e um patamar de ambição raramente atingidos por escritores brasileiros da mesma geração – mergulhados, em sua maioria, em romances violentos de sexo e ação, sob a influência do escritor mineiro Rubem Fonseca. Para que a próxima geração de autores brasileiros esteja mais próxima de Saramago do que de Fonseca, os portugueses contemporâneos são leitura obrigatória.

Fonte: Época

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