Rubem Fonseca: ficção brutal, memórias suaves

Maurício Meireles

Ao ler José, com sua vasta experiência de romantismo, é difícil entender de onde vem a brutalidade das histórias de Rubem Fonseca

FELIZ LIVRO VELHO - O escritor Rubem Fonseca em 2009. Ele acaba de lançar um livro de memórias requentadas de textos já publicados

Ninguém sabe o que acontece na vida de José Rubem Fonseca. Pouco sobre o escritor de 87 anos pode ser afirmado com convicção. Zé Rubem, como é chamado pelos amigos, é o João Gilberto da literatura. Não dá entrevistas. Quase nunca se apresenta publicamente. Quando dá as caras em qualquer evento, este se transforma em grande acontecimento. A última vez em que isso aconteceu foi no ano passado. O mineiro por nascimento e carioca por opção foi a São Paulo visitar a escritora Paula Parisot, uma de suas protegidas que havia se trancado numa cela de vidro dentro de uma livraria. A performance foi planejada para divulgar o livro da autora. Rubem praguejou contra o bando de repórteres que aguardavam sua aparição antes de, recomposto, paparicar a moça.

Agora Zé Rubem está de volta. Se não em carne e osso, pelo menos em letra e papel. O autor lançou (ou melhor, foi lançado pela Nova Fronteira, sem sua presença), na Festa Literária Internacional de Paraty, um livro de memórias de nome enganosamente simples: José (168 páginas, R$ 36,90). Junto, veio o livro de contos Axilas e Outras Histórias Indecorosas (216 páginas, R$ 39,90), também da Nova Fronteira. Vendido por sua editora como inédito, José é uma versão requentada e acrescentada. A Companhia das Letras, sua antiga editora – da qual o escritor teria saído brigado –, publicou em 2007 O romance morreu, uma coletânea de crônicas que o autor publicara na internet naquele ano. Cinco delas, chamadas José – Uma história em cinco capítulos, são a base do livro de agora. Do princípio até a metade, o texto é o mesmo: um relato distanciado, narrado em terceira pessoa. O tom é quase delicado. O autor deixa de lado a agressividade – e a energia – habitual de sua ficção e tira os sapatos para caminhar com suavidade entre suas lembranças de infância e juventude.

ESTILOS DIFERENTES - Os livros José, de memórias, e Axilas e outras histórias indecorosas, de contos

O personagem José é um homem falante e espirituoso com os amigos, mas discreto com estranhos – fãs e repórteres em particular. Tal como Rubem Fonseca. “Ele não gosta de dar entrevistas. Sempre me diz: ‘Minha obra está aí, não preciso me explicar’”, afirma Sergio Augusto, amigo e editor das novas edições de seus livros. José confirma hábitos já comentados, como o fato de que andar o ajuda a pensar. Resolve seus problemas no calçadão da Praia do Leblon, caminhando. Narra os dias e as noites de leitura e conta que aprendeu a ler sozinho aos 4 anos. Muitas vezes, debruçava-se sobre os livros escondido da mãe, que o obrigava a dormir cedo. Deitava no chão frio do banheiro para ler escondido. Depois da falência do pai, toda a família mudou-se para o Rio de Janeiro. Presenciou os anos 1930 e 1940, um período icônico da cidade. O jovem mineiro viu a Praia das Virtudes ser aterrada para a construção do Aeroporto Santos Dumont. Mais tarde, foi impedido de nadar da Praia do Flamengo até a Urca porque a Baía de Guanabara fora contaminada pela poluição.

O livro conta que o homem conhecido por ter trazido um estilo americano à literatura brasileira lia, na infância, histórias francesas como Os três mosqueteiros e O homem da máscara de ferro. Na época em que devorava essas narrativas, emprestadas por uma tia, a influência francesa era ainda forte no país. José, o personagem, conta que até as prostitutas mais famosas da Lapa, zona boêmia do Rio de Janeiro, eram importadas de Paris. O escritor gostava de observá-las. Mas só podia olhar, porque não tinha dinheiro. Nostálgico, narra o fim de seu querido Carnaval de rua. Está lá também a saudade da família, que morreu antes dele: o pai, a mãe, os dois irmãos e a irmã adotiva.

Ao ler José, com sua vasta experiência de romantismo, é difícil entender de onde vem a brutalidade das histórias de Rubem Fonseca. A cidade de sua ficção enlouquece os personagens a ponto de transformá-los em assassinos, psicopatas, amantes transtornados e mulheres diabólicas. “A literatura dele fala da vida urbana de forma inusitada, recuperando o brutalismo da tradição inglesa. Misturando de modo insólito o alto e o baixo da cultura”, diz o professor da USP Ariovaldo Vidal, especialista na prosa de Rubem Fonseca. “Tudo isso tem o intuito de denunciar a barbárie da vida social brasileira.” Ao mesmo tempo, o Rio de Janeiro de José, o personagem, é idílico, dourado pela nostalgia. “A visão dele remete a um Rio antigo, português, puro”, diz Sérgio Augusto. “Todo mundo tem saudade dos bondes.” Após a leitura de José, fica uma certeza sobre a trajetória do autor: Rubem Fonseca mudou com a cidade que escolheu em vida e prosa.

Fonte: Época

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