Extremismo, narcisismo e delírios: a mente do atirador

Psicólogos examinarão o atirador norueguês, Anders Behring Breivik, para avaliar se o assassino confesso de 76 pessoas está em capacidades mentais de ser julgado.

Segundo a polícia e o próprio advogado de defesa, Breivik admitiu a autoria das mortes em Oslo e na ilha de Utoeya, mas não aceita responsabilidade criminal por elas – em outras palavras, não crê que deva ser punido por seus crimes.

“Ele acredita que foi atroz ter de cometer esses atos, mas na sua cabeça eles são necessários. Ele queria atacar a sociedade e a estrutura da sociedade”, disse à imprensa o seu advogado, Geir Lippestad. À primeira análise, salta aos olhos a ligação de Breivik com grupos de extrema-direita. Acredita-se que ele tenha passado anos planejando o ataque.

Mas o especialista Jeremy Coid, professor de psiquiatria forense do Queen Mary College, da Universidade de Londres, acredita que esta ideologia oculta transtornos mentais mais profundos na mente do atirador.

“Ao mesmo tempo em que existem coincidências com uma ideologia de extrema-direita, acredito que ele deva sofrer também de um transtorno mental, porque ele ultrapassa a fronteira desta ideologia”, disse o especialista.

Para o especialista, “é claramente alguém que nutre uma enorme raiva – e a fonte desta raiva precisa ser descoberta”.

“O fato é que nesse momento não conhecemos suficientemente as suas motivações que nos permita fazer um diagnóstico de seu estado mental.”
Documento assustador

Investigadores estão analisando a coerência do atirador em um manifesto de 1,5 páginas mil explanando as suas visões lançado na internet pouco antes do ataque.

“É um dos documentos mais assustadores que já li”, disse à BBC o psicólogo forense Ian Stephen. “Foi escrito por um homem absolutamente meticuloso no desenvolvimento de sua filosofia.”

Stephen disse que ficou impressionado com a demonstração de empenho de Breivik . “Ele obviamente se trancou um bom tempo lendo, estudando, pesquisando na internet e formulando essa política de ódio”, disse.

Para especialistas, é possível traçar paralelos entre o atirador da Noruega e o autor de uma série de ataques a bomba alvejando as comunidades negra, asiática e gay em Londres em 1999.

O autor dos ataques, David Copeland – que havia colocado bombas de pregos em áreas de Londres com alta concentração de negros, bengalis e gays -, foi acusado de nazismo porque dizia crer em uma raça superior.

Entretanto, independentemente da ideologia, os exames mentais feitos em Copeland comprovaram que ele sofria de esquizofrenia paranóica.

“O ataque na Noruega segue a mesma linha, no sentido de que visões de extrema-direita se misturam com psicose paranóica ou transtornos delirantes”, diz o professor Coid.

“Às vezes a ideologia que serve de base não é particularmente bizarra, e essas pessoas podem passar desapercebidas. Com o tempo, fica claro que o que está se desenrolando na cabeça delas é muito errado.”

No julgamento de Copeland, em 2000, a promotoria se recusou a aceitar que ele fosse julgado por homicídio culposo – sem a intenção de matar – e o réu foi condenado por assassinato.
Transtornos

No caso de Breivik, os especialistas vão analisar diferentes aspectos da personalidade do acusado para avaliar o seu estado mental.

O professor Coid explica daí podem sair três diagnósticos: que o atirador sofre de uma psicose paranóica, delirante ou não; que tem uma personalidade com narcisismo agudo; ou que tem um transtorno de personalidade esquizofrênico.

Uma das questões importantes diz respeito a como o atirador se percebe. Em fotos divulgadas após o incidente, ele aparece usando uniformes militares e característicos dos maçons. Em outras imagens, é fotografado bem vestido e com aspecto bem apessoado.

“Ele aparece com um aspecto bastante grandioso. Esta é uma característica freqüente de uma personalidade paranóica e delirante”, diz o professor Coid.

Os médicos também querem determinar se Breivik sofre de narcisismo agudo, sua propensão a estar no centro das atenções. “Ele claramente gosta de usar uniformes e medalhas”, diz o especialista.

“Quando alguém com uma personalidade narcisista comete uma atrocidade, é normalmente depois de um episódio em que sua psique se sente ferida. O ataque pode ser uma vingança narcisista. Mas neste caso parece haver um nível muito mais profundo. Todas os indicadores são de um transtorno delirante.”

Os psiquiatras também avaliarão os relacionamentos de Breivik para saber se ele mantinha alguma ligação próxima com indivíduos – por exemplo, com uma namorada.

“Eu gostaria de saber se no passado ele já teve alguma amizade íntima em termos normais, e se desde então o seu estado mental se deteriorou”, diz Coid.

“Se ele nunca teve nada disso, então talvez estejamos diante de um caso como o do Unabomber, que vivia totalmente isolado da sociedade.”

Já houve sugestões de que o atirador emprestou parte de suas ideias e seus discursos do Unabomber, Ted Kaczynski, que está preso nos EUA por enviar bombas por correio que mataram três pessoas e feriram oturas 23 entre os anos 1970 e 1990.

Para Coid, “isto indicaria mais uma personalidade esquizofrênica: um indivíduo perfeitamente funcional, mas com uma forma de autismo e uma obsessão crescente com uma ideologia de extrema-direita”.

“Mas se formos defender na Justiça que ele sofre de doenças mentais, a promotoria dificilmente aceitaria. As pessoas acham que portadores de transtornos mentais são caóticos e descontrolados, e Breivik parece focado e organizado.”

Fonte: BBC Brasil

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