O lado perigoso do Twitter e do Facebook

por Gustavo Poloni

Como uma atitude descuidada no Twitter, no Facebook ou no Orkut pode levar alguém a perder o emprego e até a ser deportado numa viagem internacional

Escrever numa rede social pode ser mais perigoso que falar em público com um megafone potente

São Paulo – Era para ser uma viagem inesquecível. Durante quatro meses, Alberto Azevedo planejou com cuidado suas férias na Austrália. Dias antes de embarcar no voo QF18, da Qantas, publicou um post em inglês no Facebook e no Twitter. DJ nas horas vagas, ele pedia ajuda aos amigos e seguidores para se apresentar em festas enquanto estivesse no país. “Queria tocar um pouco de electro misturado com funk carioca, botar as australianas para dançar e sair bem acompanhado”, diz azevedo, 28 anos, mais conhecido nas pistas de dança como Bebeto Le Garfs. Com a resposta positiva de um amigo australiano, incluiu um HD com músicas e um fone de ouvido entre as camisetas e meias na mala.

Sua viagem para a Austrália entrou, sim, para a história, mas por um motivo bem menos nobre. Questionado no departamento de imigração do aeroporto sobre o motivo da visita, azevedo disse que encontraria amigos no país. Após uma rápida discussão, ouviu dos agentes: seu Twitter diz outra coisa. Os oficiais vasculharam o perfil de Azevedo na rede de microblogs, leram a troca de mensagens com o amigo australiano e o acusaram de tentar ganhar dinheiro no país. Mandado de volta para o Brasil no primeiro avião do dia seguinte, Azevedo conheceu da pior forma o lado perigoso das redes sociais.

Alberto “Le Garfs” Azevedo não é a primeira pessoa a enfrentar problemas por causa da sua vida online. São muitas as histórias de gente que terminou um relacionamento, outros que foram processados ou até presos em função de comentários publicados no Twitter e fotos no Facebook. Nos últimos anos, o número de casos aumentou com a mesma velocidade da popularização das redes sociais. O Facebook já tem 750 milhões de usuários. Isso significa que mais de um em cada dez habitantes do planeta está conectado ao site de mark Zuckerberg. O Twitter acumula 140 milhões de mensagens ao dia. É como se 75% da população brasileira postasse ao menos um comentário a cada 24 horas.

Convite à confusão

Com as redes sociais cada vez mais presentes no dia a dia das pessoas, é inevitável que muita gente encontre, nelas, uma maneira fácil, rápida e abrangente de se manifestar — e daí para se meter numa confusão é um pulo. “Como se trata de um fenômeno novo, as pessoas ainda não sabem como levar suas vidas online”, diz Luciana Ruffo, psicóloga do Núcleo de pesquisa da psicologia em informática da PUC de São Paulo. “elas acabam expondo coisas que não precisam e, mais importante, que não deveriam.”

Uma das pontas mais visíveis das extravagâncias envolvendo redes sociais pode ser encontrada no mundo corporativo. Postar uma foto bêbado depois da noitada ou fazer um comentário racista pode ser a diferença entre conseguir ou não o emprego dos sonhos. Estudo realizado pela Jobvite, uma rede social de recrutamento, mostra que 92% das empresas americanas já usaram ou planejam usar as redes sociais no processo de contratação. E engana-se quem pensa que elas acessam apenas sites como o corporativo LinkedIn. Entre as companhias pesquisadas, 60% assumem bisbilhotar a vida dos candidatos no Facebook e metade admite entrar no Twitter.

Quando a Jobvite realizou a mesma pesquisa em 2008, os dois sites sequer apareciam na lista. “As corporações não estão mais preocupadas apenas com as habilidades técnicas dos funcionários”, afirma Andreza Santana, gerente de marketing sênior do Monster, portal de recrutamento e seleção. “Elas querem saber também das habilidades emocionais e sociais. E as redes sociais escancaram essas características das pessoas.” Pesquisa da agência de recrutamento Robert Half com 2 500 executivos mostra que 44% dos brasileiros desclassificariam um candidato no processo de seleção por seu comportamento no Facebook, no Twitter ou no Orkut.

No Brasil, o uso de redes sociais na contratação de funcionários é quase um tabu. A operadora de telefonia e banda larga GVT é uma das empresas que admitem usá-las no recrutamento. Funciona assim: os analistas de RH entram no LinkedIn para checar se o candidato tem o currículo adequado para a vaga. Se tudo estiver de acordo, eles partem para o Facebook. Lá, todos os detalhes são levados em consideração: desde as páginas que o candidato curte, o número de amigos, as fotos e até os assuntos comentados.

“É nas redes sociais que você sabe como o profissional se comporta no dia a dia”, diz George Bettini, gerente de RH da GVT. “Só uma conversa não é capaz de revelar todos os detalhes.” A GVT evita, por exemplo contratar para uma vaga no call center alguém que tenha um perfil no Facebook considerado explosivo. Não há lei que proíbe as empresas de acessar o perfil de candidatos e funcionários nas redes sociais. “O que não pode é usar meios escusos para abrir o acesso”, diz o advogado trabalhista Marcos Alencar.

Adeus, emprego

O jornalista Gustavo Longo não conhecia os riscos que corria ao publicar mensagens polêmicas em seu perfil do Twitter até quando decidiu disputar uma vaga de estagiário na TV Globo de São Paulo. Nascido em Porto Ferreira, no interior do estado, ele teve um bom desempenho na prova escrita e na dinâmica de grupo. O jovem de 23 anos foi chamado para uma última entrevista, que desta vez reuniria representantes do RH e jornalistas esportivos da emissora, como Tiago Leifert.

Durante a conversa, o apresentador do Globo Esporte sacou dois tuítes que havia encontrado em sua timeline e perguntou se Longo achava correto chamar o presidente do Santos de ladrão num espaço público. Acuado com a pergunta, Longo defendeu-se dizendo que se tratava de uma conta pessoal. “Soube ali que se fosse contratado pela Globo, meu perfil e tudo o que posto na internet ficariam relacionados à emissora”, disse Longo. O resultado do descuido? O estudante não conseguiu o estágio. “Quando saí da entrevista, tive certeza de que aquilo havia acabado com minhas chances de trabalhar na empresa”, disse Longo. Procurado pela INFO, Leifert admitiu analisar os perfis nas redes sociais. “É um dos vários recursos na hora de avaliar candidatos”, afirmou o apresentador.

Weinergate

O jovem jornalista nunca vai saber ao certo se os comentários foram ou não a causa da sua desclassificação do processo de seleção. Em outros casos, o papel das redes sociais é determinante. Em meados de junho, o democrata Anthony Weiner viu-se obrigado a renunciar ao cargo de deputado por Nova York depois de enviar uma foto de cueca para uma estudante pelo Twitter. Flagrado, o congressista, casado há um ano, negou que fosse o responsável pelas imagens, disse que seu perfil havia sido invadido e ainda fez piada com o que chamou de “infortúnio”. “Televisão quebrada, Facebook hackeado. Será que o meu liquidificador vai me atacar? A torradeira é muito leal”, dizia um de seus tuítes logo após o início do que ficou conhecido como Weinergate.

A farsa durou pouco tempo. Dias depois, o deputado admitiu manter, nos últimos três anos, relações sexuais virtuais com seis mulheres, entre elas uma estudante universitária, uma mãe solteira e uma atriz pornô. Deslizes como o de Weiner são comuns nos Estados Unidos. No início do ano, o responsável pela conta no Twitter da montadora Chrysler foi demitido. O motivo? Um post que dizia: “É curioso Detroit ser chamada de cidade dos carros e ter tanta gente que não sabe dirigir”.

Manual de conduta

O aumento do número de casos de pessoas que usam as redes sociais para falar e fazer o que não deveriam fez piscar uma luz amarela no departamento de RH das organizacões. Um tuíte fora do lugar pode dar início a uma crise institucional. O primeiro a que se teve notícia foi o caso da Locaweb. Após um clássico contra o São Paulo, time patrocinado pela companhia, o corintiano Alex Glikas, diretor comercial da empresa, provocou a torcida do São Paulo pelo Twitter. A repercussão foi tão negativa que ele acabou demitido. Mas foi recontratado oito meses depois.

A Locaweb faz parte de uma estatística que não para de crescer. Pesquisa da fabricante de soluções de segurança Proofpoint revela que 7% das organizações americanas já demitiram um empregado por causa das redes sociais. Para evitar o problema, cada vez mais as intituições estão fazendo um manual de conduta nas redes sociais. A Tecnisa é uma delas. Considerada um case por usar bem a internet, tem no forno uma cartilha que, entre outras coisas, impede os funcionários de fazer posts com o nome da empresa.

“É uma forma de se proteger juridicamente”, afirma Romeo Busarello, diretor de internet da Tecnisa. “Se um funcionário cometer algum deslize e eu quiser demiti-lo, ele não pode reclamar.” As companhias podem recomendar um comportamento nas redes sociais, mas não controlar a vida pessoal dos empregados. “A empresa não pode pedir para tirar do perfil uma foto por achar que pega mal para a corporação”, diz o advogado Alencar.

Seis horas por dia na rede

Os problemas causados pelas redes sociais no mundo corporativo são um reflexo do comportamento do brasileiro na internet. De acordo com o instituto de pesquisas E.life, 42,5% dos internautas ficam mais de 41 horas por semana conectados. São quase seis horas diárias de navegação. Entre as principais atividades online, destaques para o Facebook, o Twitter e os programas de bate-papo, como o MSN.

A situação é parecida nos Estados Unidos. Por lá, os usuários gastam um em cada seis minutos do dia navegando pelas redes sociais, o dobro do tempo registrado há quatro anos. A compulsão deu origem até a uma nova síndrome, batizada de Fomo, ou Medo de Ser Excluído, na sigla em inglês. A síndrome desperta uma mistura de ansiedade, irritação e um sentimento de falta de adequação quando uma pessoa entra na sua conta do Twitter, do Facebook ou do Foursquare e percebe que os amigos estão se divertindo e postando fotos numa festa de arromba, para a qual ela não foi convidada. “Esse medo sempre esteve presente nas pessoas”, diz Sherry Turkle, professora de estudos sociais, ciência e tecnologia do MIT (Massachusetts Institute of Technology). “Mas ele fica mais forte graças às ferramentas sociais.”

Superexposição

O aumento do tempo que as pessoas passam na internet dá origem a um círculo vicioso. Quanto mais elas ficam online, mais se expõem. E quanto mais se expõem, mais criam problemas. “Tem gente que publica coisas nas redes sociais que não diria em público”, diz Manoel Fernandes, diretor da consultoria de estratégias digitais Bites. “Elas têm um celular na mão, o Facebook no computador e não estão nem aí para o resto.” Os números levantados pelo site Retrevo, que analisa a relação entre consumidores e tecnologia, mostram que um em cada três americanos já se arrependeu de ter escrito um post.

O número cresce para 54% quando os internautas têm menos de 25 anos. “As pessoas escrevem no Twitter ou no Facebook como se estivessem falando na sala de estar de casa”, afirma o procurador Adilson do Amaral Filho, coordenador do grupo de combate a crimes cibernéticos do Ministério Público Federal. “Elas esquecem que é o mesmo que gritar em praça pública para todo o mundo ouvir.”

A metáfora do procurador Amaral Filho tomou forma no início do ano, durante as revoluções que varreram o mundo árabe. Milhões de pessoas foram às ruas do Irã, do Egito e da Síria para protestar contra os ditadores que há muitos anos governavam esses países com mão de ferro. As manifestações foram organizadas por ativistas por meio de redes sociais, em especial o Twitter. Em alguns casos, os manifestantes conseguiram derrubar o regime. Em outros, não tiveram a mesma sorte.

O que pouca gente sabe é que as mesmas redes sociais que ajudaram no levante, agora são responsáveis por calar ativistas. No final de maio, o governo de Mahmoud Ahmadinejad mandou o iraniano Houshang Fanaian para trás das grades. A acusação? Suas atividades online. “As redes sociais são muito fáceis de rastrear e monitorar”, diz Evgeny Morozov, jornalista bielo-russo e autor do livro A Desilusão da Rede: O Lado Obscuro da Liberdade na Internet. “Se você quer organizar uma revolução no Twitter, lembre-se de que suas ações serão visíveis para todo o mundo.”

Traição revelada

Foi vasculhando as redes sociais que a carioca Deborah Calazans, 26 anos, resolveu colocar um ponto final no seu casamento. Ela se mudou do Rio de Janeiro para Brasília depois de dois anos de namoro, para acompanhar o ex-marido, que havia sido transferido para um quartel na capital federal. Tudo ia bem até que, ao acessar a internet do computador do casal, Deborah encontrou uma conta de e-mail desconhecida. “Perguntei a ele se alguém tinha ido ao apartamento enquanto estava fora”, disse Deborah. A resposta foi negativa. Desconfiada, ela resolveu investigar e encontrou um perfil suspeito no Orkut. “As amigas em comum e o apelido Carioca seguido da inicial do nome dele me fizeram acreditar que aquele perfil era o do meu marido”, diz Deborah.

A coisa só piorou com as mensagens comprometedoras publicadas por mulheres na página. Depois de dois anos de casamento, Deborah voltou para o Rio. Indiscrições e traições nas redes sociais são apontadas como o principal fator para o fim de muitos relacionamentos. Nos Estados Unidos, um em cada cinco pedidos de divórcio traz a palavra Facebook. Para 81% dos advogados que trabalham com direito de família, esse número só tem aumentado.

Regras simples

Não é difícil evitar que um perfil nas redes sociais vire uma fonte de problemas. É só seguir regras simples e ter bom-senso. Alberto Azevedo, o DJ deportado da Austrália, nunca foi muito preocupado com privacidade. Tuíta várias vezes ao dia sobre assuntos variados. Comenta baladas, diz o que vai comer no jantar e faz check-in por todos os lugares por onde passa. Foi essa superexposição que acabou lhe rendendo a extradição. Azevedo foi parado na imigração australiana por um motivo banal: estava sem a carteira de vacinação. Sentado num banco, foi informado por um oficial de que não poderia ficar com o celular naquela área. Sem se preocupar, entregou o aparelho. Foi seu erro.

O agente aproveitou que o telefone não tinha senha e acessou a conta de Azevedo no Twitter. Viu então a troca de mensagens com o amigo australiano. O DJ foi levado para um centro de detenção de imigrantes, onde passou a noite. “Achava que iriam perceber o absurdo e que me deixariam entrar na Austrália”, diz Azevedo, dono de um albergue em São Paulo. “A primeira coisa que fiz ao voltar para o Brasil foi restringir o acesso ao meu Twitter e mudar a privacidade no Facebook.” Alberto Azevedo pretende viajar de novo nos próximos meses e quer aproveitar para tocar em alguma festa. Com uma diferença: só vai fazer contato pelo mundo real. E quando já estiver no país.

Fonte: Exame

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