Antes das Primeiras Estórias traz contos do jovem Guimarães Rosa

Reunidos pela primeira vez, os materiais do autor na juventude mostram o gosto pelo horror, a fantasia e o suspense. Leia um dos contos

LUÍS ANTÔNIO GIRON

João Guimarães Rosa em 1930. Ele começava a carreira de médico e ganhava prêmios como contista (Foto: Divulgação/Nova Fronteira)

No dia 1º de setembro, durante a Bienal do Livro do Rio de Janeiro, a editora Nova Fronteira lança Antes das primeiras estórias (Nova Fronteira, 96 páginas, R$ 29,90), de João Guimarães rosa. Trata-se de uma edição que reúne, pela primeira vez, quatro contos da juventude do autor, publicados na revista O Cruzeiro e no Suplemento dos Domingos de O Jornal, de 1929 a 1930. Guimarães Rosa (1908-1967) tinha 20 anos e, recém-formado em Medicina em Belo Horizonte, iniciava sua vida profissional. Também tentava dar os primeiros passos como contista. Entre os textos, constam narrativas de horror, fantasia, suspense e romantismo. Para grande parte dos especialistas rosianos, esses textos são o avesso do Guimarães Rosa conhecido, o escritor do sertão mítico que vive em cada um de nós. “É tudo menos Rosa”, diz o poeta e historiador Alberto da Costa e Silva, amigo de Rosa e organizador das edições portuguesas de sua obra. “Ele parece um escritor de fantasia e suspense, mais parecido com Edgar Allan Poe do que com o Guimarães Rosa.”

“Nossa intenção é estimular a curiosidade daqueles que gostam de literatura”, diz Janaína Senna, organizadora do volume. “Nossa intenção foi editar uma coletânea simpática, com um título que remete às Primeiras estórias, de Guimarães Rosa (livro de contos pubicado em 1962). Quem ler os contos vai descobrir um escritor em formação. Não é o Rosa que as pessoas conhecem. Mas é alguém que escreve bem e ainda está tentando encontrar sua voz narrativa.” Ela não acha que ao publicar os contos incorra em desrespeito ao escritor, pois, afinal, eles foram publicados em revistas por sua vontade.

João escrevia desde menino, sempre à mão, no papel de embrulho da loja do pai, na cidade natal de Cordisburgo, Minas Gerais. Em carta ao ilustrador Poty, afirmou que os contos que escreveu em 1929, “não valiam nada”. Demorou 16 anos para ficar contentte com seu estilo lançar um livro:– a coletânea de contos Sagarana, em 1956. E nunca mencionou os chamados “pecadilhos de juventude” a Costa e Silva. “Eu sabia da existência desses contos, mas há assuntos que os escritores preferem ignorar, principalmente quando estão entre escritores”, diz. Bem antes de se tornar poeta, historiador e especialista em Guimarães Rosa, Costa e Silva havia sido redator da revista A Cigarra, caderno cultural mensal de O Cruzeiro. Em 1956, o lançamento do romance Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, causou estardalhaço. Até então, ele era conhecido por Sagarana. Grande sertão: veredas arrebatou os leitores pela revelação final e a energia inovadora do estilo. O enredo pode ser grosseiramente descrito como relato em primeira pessoa de escaramuças entre bandos de malfeitores e um caso de amor entre dois jagunços. Coube ao redator escrever um texto sobre a novidade que empolgava milhares de leitores. Seu chefe na redação era Constantino Paleólogo (1922-1966). Para rechear o texto, ele mostrou a Costa e Silva os contos de Rosa publicados em O cruzeiro 27 anos antes: “Olha só, Alberto, como o Rosa já sabia prender o leitor muito antes de ficar famoso. E fui eu que o revelei!”

Guimarães Rosa e José Condé no lançamento de Sagarana, em 1946 (Foto: Divulgação/Nova Fronteira)

 

Paleólogo criara os concursos mensais de conto e poesia em O Cruzeiro, a revista de maior circulação no Brasil dos anos 30 aos 60. Rosa venceu três concursos, por sua habilidade de narrar tramas cheias de reviravoltas e efeitos especiais, algo que estava repetindo com seu romance. O prêmio era a publicação dos textos, ilustrados por artistas famoso naquele tempo, como Carlos Chambelland e H. Cavalleiro. Foram eles: “O mistério de Highmore Hall” –  publicado em 7 de dezembro de 1929 – “Chronos kai Anagke (Tempo e Destino)”, em 21 de junho de 1930,  e “Caçadores de camurça”,  em 12 de julho de 1930. Além dos três textos, publicou o conto “Makiné” no Suplemento dos Domingos de O Jornal em fevereiro de 1930. “Naquele tempo, foram contos lidos por centenas de milhares de leitores”, diz Costa e Silva. “E podem ser apreciados hoje com o mesmo prazer.”

Para elaborar a edição, a organizadora Janaína Senna pesquisou no arquivo rosiano do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB), que compreende cerca de 20 mil documentos. Além dos contos, a editora lança até o fim do ano uma antologia dos cadernos Boiada, escritos entre 1950 e 1952, durante as excursões a cavalo pelo sertão mineiro, que serviram como material para Grande sertão: veredas, publicado em 1956. Para o ano que vem, a editora deve publicar uma antologia de reflexões metafísicas, viagens e críticas sobre outros autores. Durante a pesquisa, Janaína se deparou com vários esboços de contos, escritos já no estilo maduro do autor. Ela concluiu que os contos da juventude são somente os quatro que constam da edição. “São tão peculiares que decidimos não convidar um especialista em Guimarães Rosa para redigir a introdução crítica, uma vez que eles não teriam nada a dizer sobre o Rosa jovem, tão diferente ele é do maduro. O Rosa jovem tem mais a ver com os contos de suspense de Edgar Allan Poe do que os do próprio Rosa no ápice”, diz a organizadora.

O ponto fraco da edição é justamente a ausência de um estudo introdutório e notas explicativas sobre o vocabulário. A ausência de um estudo pode criar problemas para o leitor não iniciado. Ele não vai entender por que Guimarães Rosa adotou a fantasia e o suspense, quais foram suas leituras e influências – e o que o levou a escolher este ou aquele tema. Com medo de tornar o volume pesado demais ao leitor comum, a edição peca pela leviandade. Um texto bem documentado e com uma introdução crítica não implica uma leitura automaticamente desagradável. Muito ao contrário: um pouco de informação valorizaria o volume e enriqueceria a experiência da leitura.

“Não é o tipo de literatura que me agrada”, diz Janaína. O Rosa jovem tem mais a ver com os contos de suspense de Edgar Allan Poe do que os do próprio Rosa no ápice”, diz a organizadora, e confessa: “Não são contos que me agradem especialmente. Isso porque não consigo ver novidade na sua narrativa juvenil.”

Apesar de tudo, uma especialista no Rosa sertanejo como Walnice Nogueira Galvão afirma que o volume é tão interessante que poderá dar origem a pesquisas. “Tenho certeza de que logo vão aparecer  teses de doutorado sobre a narrativa fantástico em Guimarães Rosa”, diz. “E, como são forjados num estilo de gótico de Poe e E.T.A Hoffmann,  poderão agradar aos jovens que hoje adoram o gênero de fantasia.” De acordo com Walnice, os contos são antípodas da obra futura de Rosa. “Na juventude, em sua terra natal, ele imaginou países estrangeiros que não conhecia. Inversamente, na maturidade, ele começou a escrever sobre o sertão quando estava na Alemanha.”

Costa e Silva observa que os contos ajudam a compreender a estética antinacionalista e universalista de Rosa. “Ele começou com temas universais, aos quais retornariam em suas últimas coletâneas de contos, já transfigurados pelo mundo sertanejo que recriou por meio da linguagem”, diz.

Mesmo que soe leviano estabelecer uma relação direta entre o Rosa moço e o adulto, algumas pistas de posteridade já aparecem ali, nss aventuras fantásticas. Até o diabo aparece não na rua, no meio do redemoinho do grande sertão, mas nos salões de um hotel luxuoso no norte da Alemanha, onde se realiza uma competição internacional de xadrez – em “Chronos e Anagke” (leia trecho do conto). No romântico “Caçadores de camurças”, os pastores usam gibão e lutam pelo amor de uma mulher, ainda que nos Alpes Suíços em vez do sertão dos Campos Gerais. Há paixões violentas feito a de Riobaldo por Diadorim no conto “O mistério de Highmore Hall”. E até Minas Gerais surge selvagem no conto “Makiné”, que narra a história de um grupo de magos fenícios que descobrem a América e é sacrificado pelos índios na gruta de Makiné – localizada em Cordisburgo. Além do cenário e das tramas rocambolescas, o jovem escritor mostra seu entusiasmo pelas palavras e as descrições da natureza. Embora usando o vocabulário parnasiano e a sintaxe simbolista – que não o alinhava aos modernistas que estavam em moda nos anos 20 – ele deixa escapar seu entusiasmo pela busca de palavras e de efeitos sensoriais, à maneir de um pré-modernista como Coelho Neto ou Euclydes da Cunha. São histórias repletas de imaginação que se enquadram no gênero de fantasia hoje em moda entre a juventude e os fãs de cultura pop. Nesse sentido, os quatro contos oferecem uma leitura saborosa. Basta ler agarrado ao dicionário. Nessas histórias, nota-se que Rosa não se vinculava à literatura realista da escola de Machado de Assis, e sim à dos simbolistas e parnasianos. Era pós-moderno antes do tempo. Seu vocabulário carregava no barroco, sua imaginação se revelava delirante. Só não havia ainda apeado no sertão.

Fonte: Época

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