Psicólogo: ser ou parecer?

por Cleison Guimarães

Algo que normalmente você ouve quando diz que estuda Psicologia é: “Verdade, você tem mesmo cara de quem faz psicologia” ou “Acho que você vai ser um bom psicólogo porque é bem calmo” ou ainda pior “Você faz Psicologia? Você sabe que não pode ter problemas né?”, entre outras frases diversas ou que soam inapropriadas.

Quando ouço alguma dessas frases fico pensando, se um psicólogo ou até mesmo um estudante de Psicologia precisa parecer alguém que esteja envolvido com a área Psi de alguma forma? Será que um psicólogo precisa usar determinado tipo de roupa? Ou aparentar uma tranquilidade digna de um monge zen?

Um exemplo que posso citar ocorreu com uma colega de sala, que aqui vou chamar de P.. Estamos no 9º período do curso, é uma fase quando iniciamos o estágio supervisionado em Psicologia Clínica e lá foi P. procurar um lugar para iniciar seu período de estágio e encontrou um lugar que ela gostou muito e que demonstrou o interesse de fazer seu estágio lá, mas, antes do 8º período terminar, P. tingiu os cabelos com a cor azul e quando ela manifestou o interesse de fazer o estágio nesse lugar foi dito para ela que com o cabelo daquela cor ela não poderia fazer seu estágio lá, essa situação ocasionou uma discussão no Facebook quando P. narrou o que ocorreu.

Tudo bem que não é todo dia que você vê alguém que está na área Clínica que tenha o cabelo azul, mas durante essa discussão pensamos o porquê são tão hipócritas alguns lugares que querem transvestir um profissional com a aparência da normalidade bem aceita por todos da sociedade.

Eu não me assustaria se meu terapeuta tivesse o cabelo azul ou fosse alguém tatuado, mas, isso sou eu, e tem gente que não admite isso.

Em uma aula desse novo período foi dito por uma aluna: um psicólogo, muitas vezes, precisa se transvestir de alguém que sempre está bem com a vida e que nunca teve um probleminha na vida.

Com isso, eu fico refletindo que o cuidado extremo que muitas vezes temos em nos mostrar como pessoas um tanto “endeusadas” e que vivemos “muito bem, obrigado” é algo que parece ser um tanto desnecessário, sendo que também somos seres humanos e vivemos como qualquer ser humano, com todas as alegrias e tristezas de uma vida.

Ter estrutura emocional para si por no lugar do outro que está sofrendo é uma coisa bem diferente de ser frio para não se importar com os problemas alheios.

Eu já senti um nó na garganta ao ouvir uma história de uma pessoa que eu estava atendendo, foi bem difícil tentar suportar tudo aquilo, mas nada que um bom copo d’água e alguns momentos de silêncio e de solidão não resolvam. Ao menos para mim resolveu.

Finalizo com algo que aconteceu na minha primeira supervisão em Psicologia Clínica, meu supervisor disse algo interessante, ele disse que precisamos ter vivido, se alegrado e ter sofrido o mínimo suficiente para assim conseguir compreender a dor daquele ser humano que busca o Serviço de Psicologia, porque esse mínimo vai nos proporcionar a empatia suficiente de si por no lugar desse cliente e compreendê-lo, para saber o quão humana é a dor desse individuo, além disso, esse mínimo é apenas mínimo, porque, como você são psicólogos em formação ainda precisarão viver mais, se alegrar mais e sofrer mais, porque o que conta no final de tudo é o quanto você viveu a experiência de ser uma pessoa num mundo bem contraditório e apesar disso ainda consegue dar um sorriso para alguém que não sabe o que é sorrir há um bom tempo.

* * *

Cleison Guimarães é acadêmico de Psicologia. É escritor iniciante e blogueiro. Visite seu blog, o Caleidoscópio, aqui. Siga-o no twitter, aqui.

Fonte da foto, aqui!

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8 comentários em “Psicólogo: ser ou parecer?

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  1. Muito bacana suas palavras escritas no blog….realmente tarefa muito dificil….e as cobranças so vão aumentar cada vez mais….mas em fim…são as escolhas da vida…depois vamo aprendendo a lidar com essas coisas, pois sabemos que elas fazem parte desse processo….

    (Via Facebook)

  2. Grande Cleison, parabéns por mais este texto. Um dos meus maiores desejos é que eles sejam semanais e, com isso, deixar nossas vidas mais iluminadas.

    Um grande abraço.

    Jorge Cristiano

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